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Veja aqui alguns dos textos assinados por Fábio Caramuru:
UM PROGRAMA DE INCENTIVO AOS JOVENS MÚSICOS
FESTIVAL DE JUIZ DE FORA
DUO LABÉQUE - UM SHOW DE CONCERTO
LAÉRCIO FREITAS
FESTIVAL DE INVERNO DE CAMPO DO JORDÃO
O MITO BIDU SAYÃO
WAYS OF THE VOICE
CONCERTO ITALIANO
COMUNITÀ DEFINITIVO
MÔNICA SALMASO - CD “ Iaiá ”
ORQUESTRA EUROPÉIA
MARIA JOÃO PIRES
LITERATURA E MÚSICA
ASSIS BRASIL, UM APAIXONADO PELO PIANO
FESTIVAL MÚSICA NOVA
MARIA BETHÂNIA E SUA QUITANDA
BACH E VILLALOBOS
ARQUEOLOGIA MUSICAL
UM PROGRAMA DE INCENTIVO AOS JOVENS MÚSICOS
(Gazeta Mercantil, 09/08/2004)
No último final de semana, teve início na cidade de São Paulo o projeto “Furnas Geração Musical”. Trata-se de um inusitado programa nacional de incentivo à carreira profissional de jovens músicos. Em todo o país, inscreveram-se 280 candidatos, com idade máxima de 25 anos, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Espírito Santo, Paraná e Distrito Federal.
O programa oferece aos músicos em início de carreira profissional oportunidades de apresentações nas capitais desses estados mediante um processo seletivo inicialmente regional. De cada um dos oito estados, três concorrentes serão indicados para participar no Rio de Janeiro das provas finais que deverão contemplar os três candidatos mais promissores do país com bolsas de estudos para o próximo ano. As bolsas incluem, além das aulas quinzenais com grandes professores, despesas de transporte e hospedagem do músico, caso este tenha que se deslocar de sua cidade.
Os escolhidos de cada estado participarão, ainda, de um intercâmbio musical nacional, fazendo recitais em outras capitais. Os selecionados em São Paulo, por exemplo, deverão se apresentar na cidade de Vitória, no Espírito Santo. São eles, o violonista André Freitas Simão, 24, da cidade de Taubaté, o percussionista César Adriano Traldi, 20, de Campinas e o pianista Ronaldo Rolim da Silva Filho, 18, de Votorantim. Juntamente com outros oito selecionados, eles serão as principais atrações em recitais na capital paulista, no Espaço Promon, nos próximos dias 30 de agosto, 27 de setembro e 27 de outubro, sempre às 21 horas, com entrada franca.
Para se garantir uma uniformidade de critérios, todos os candidatos inscritos no país serão avaliados pelo mesmo corpo de jurados, três professores-musicistas de reconhecida competência, que nos próximos dois meses viajarão semanalmente a todas as localidades onde se realizarão as provas seletivas.
A iniciativa do programa partiu do próprio presidente de Furnas Centrais Elétrica SA, Sr. José Pedro Rodrigues de Oliveira, que o encomendou à sua coordenadora e diretora artística, a mineira Marília Salgado. O presidente faz questão de envolver-se pessoalmente na realização do projeto, tendo vindo especialmente a São Paulo para acompanhar as provas realizadas no teatro da Faculdade Santa Marcelina. Segundo Marília, embora o edital tenha sido publicado em período férias e do curto espaço de tempo entre o momento de seu lançamento e o encerramento das inscrições, o resultado provou que no Brasil os jovens artistas estão ávidos por oportunidades.”A bolsa de estudos oferecida aos três selecionados de todos os estados propiciará uma orientação de maior profundidade e uma nova perspectiva de estudos e trabalhos para esses jovens”, afirma Marília.
São grandes as expectativas da instituição promotora em relação a este e outros programas de natureza cultural, segundo a visão de Gleyse Peiter, superintendente da Coordenação de Responsabilidade Social de Furnas:
GM - Qual a importância deste projeto cultural para Furnas e quais as expectativas quanto aos seus resultados?
Gleyse Peiter - Em seu compromisso com a sociedade, Furnas desenvolve projetos que contribuem para o desenvolvimento econômico, social e cultural do país, gerando energia e promovendo cidadania.
”Furnas Geração Musical”faz cumprir este compromisso quando viabiliza a descoberta de talentos, trazendo novos ares ao quadro cultural brasileiro e contribuindo também para a geração de oportunidades de trabalho e renda, principalmente no campo da música erudita.
Os cerca de 280 inscritos, nos estados de RJ, MG, SP, ES, GO, PR, MT e DF, já são um indicativo de sucesso, demonstrando a possibilidade de um espaço de atuação e o interesse pelo tema.
GM - Quais outros projetos culturais que fazem parte da programação de Furnas você destacaria ?
Gleyse Peiter - No campo da responsabilidade social, Furnas criou em 2003 seu Espaço Cultural, localizado em sua sede, no Rio de Janeiro, onde são apresentadas exposições de pintura, escultura, fotografia e gravura, abrindo suas portas para a comunidade, trabalhando pela inclusão cultural da sociedade, lançando novos talentos. O primeiro projeto apresentado no Espaço Cultural, “Olhares do Morro”, trouxe uma mostra de fotos produzidas por adolescentes dos morros cariocas e será levada agora para Paris.
Para ocupar o Espaço Cultural de Furnas, os projetos são selecionados por um conselho de curadores, formado por notáveis no campo das artes. Oferecidos, ainda, cursos de monitoria para jovens de baixa renda e projetos em arte-educação, com escolas que o visitam. Desde sua inauguração, recebemos mais de 4.500 visitantes e 57 escolas, sem contar o público interno, dos próprios funcionários de Furnas.
Na esteira do grande sucesso das audições realizadas em São Paulo, o processo seletivo regional de “Furnas Geração Musical” prossegue nas outras capitais até o próximo dia 3 de outubro, quando serão escolhidos os músicos do Distrito Federal.
Depois disso, é só aguardar a programação de recitais da grande final a ser realizada na cidade do Rio de Janeiro, ocasião em que o público terá o privilégio de conhecer de perto a sonoridade dos mais talentosos e dedicados músicos brasileiros da nova geração.
(Gazeta Mercantil, 28/06/2004)
Para um país com tão pouca tradição em música erudita, o fato pode parecer surpreendente: no Brasil, fora do eixo Rio-São Paulo, vem acontecendo já há 15 anos um festival inteiramente dedicado à Música Antiga.Trata-se do “Festival Internacional de Musica Colonial Brasileira e Musica Antiga de Juiz de Fora”.A iniciativa é do Centro Cultural Pró-Música daquela cidade mineira, tendo como figura chave a empreendedora personalidade artística do jovem violinista e regente Luís Otávio Santos, radicado há 14 anos na Europa.
Entre muitas atividades que vem realizando relacionadas à pesquisa e execução de música barroca, Luís Otávio dirige a prestigiada“Orquestra Barroca de Den Haag”, programada para vir a São Paulo no próximo mês de agosto, para duas récitas da “Missa em si menor” de J.S. Bach no Mosteiro de São Bento.
De Bruxelas, onde reside, ele nos concedeu uma breve entrevista:
GM – Luís, conte-nos um pouco sobre a história e o perfil do festival.
LOS - Este ano o Festival Internacional de Musica Colonial Brasileira e Musica Antiga de Juiz de Fora vai para sua 15ª edição. Um longo caminho que já foi registrado em 13 Cds (quatro deles com a Orquestra Barroca do Festival, em um trabalho de resultado artístico inédito no Brasil), cinco encontros de musicologia histórica (que a partir deste ano torna-se o mais duradouro evento acadêmico do gênero já realizado no Brasil, com seis edições) e - é claro - o seu trabalho didático com mais de 700 alunos e 55 professores, com oficinas que abordam as mais diversas facetas, da iniciação musical (como o método Suzuki) à especialização em estudos avançados, como o departamento de música antiga, o mais bem equipado dos festivais brasileiros. A isso, somam-se concertos diários em vários horários, todos gratuitos, envolvendo toda a comunidade de Juiz de Fora, em teatros, igrejas, praças publicas e escolas .
GM – Qual a programação e os principais artistas convidados para este ano?
LOS - Este ano o Festival (que em outras edições recebeu celebridades do mundo artístico como o grande pioneiro da pesquisa musicológica do Brasil Colonial - Curt Lange - e o pioneiro na musica antiga - Sigiswald Kuijken) comemora seus 15 anos com a produção de um DVD com a Orquestra Barroca do Festival, com obras de J. S. Bach (Cantata BWV 214), Leclair (“Suite Scilla et Glaucus”), Vivaldi (“La Stravaganza”) e diversas peças coloniais inéditas. Sou o responsável pela direção musical e também pela direção artística do festival, que tem como solistas os cantores Karine Serafin (soprano) Pedro Couri Neto (contratenor) Otto Bouwknegt (tenor) e Marcelo Coutinho (barítono). A direção de vídeo é de Lea van Steen.
Outro momento importante do festival em 2004 será a montagem de “Zaíra” - a mais antiga ópera escrita no Brasil, composta pelo português Bernardo José de Souza Queiroz, músico que passou a maior parte da vida no país, no início do século XIX. A história da escrava Zaíra é baseada em Zaïre, de Voltaire. O libreto é de Mattia Butturini, tendo sido revisado por Giuseppe Caravita. Souza Queiroz compôs a música em dois atos, no Rio de Janeiro, entre 1808 e 1815.
A história se passa num harém em Jerusalém, após a retomada da cidade pelos turcos, durante as cruzadas. Anos depois de encerradas as batalhas, o sultão Orosmane ainda mantém prisioneiros os cavaleiros europeus, entre eles Lusignano, um velho príncipe descendente dos reis cristãos de Jerusalém. O espetáculo será regido pelo maestro Sérgio Dias, que conta com a preparação vocal da professora Neyde Thomas e do pianista Renato
Figueiredo. Valéria Mattos trabalha na preparação do coro. A restauração da ópera está sendo realizada por Rogério Budasz e a direção e a cenografia são assinadas por Walter Neiva, com execução de Paulo Sérgio Talarico. Kalinka Damiani viverá o papel da escrava. A ópera será apresentada com os diálogos legendados, no dia 31 de julho, às 20h, no Cine-Theatro Central. Como os recitativos acompanhados da ópera se perderam, a direção do espetáculo optou por legendar estes trechos para que o público possa acompanhar o drama.A realização da ópera reúne trabalhos de pesquisa, ensino e interpretação, os três pilares do festival desde a primeira edição. Pesquisa, porque está sendo redescoberta agora, especialmente para o evento, pelo musicólogo Rogério Budasz. Ensino, porque os músicos serão preparados durante os quinze dias do evento
na oficina Prática de Orquestra Colonial (Ópera). E interpretação, porque o público poderá conferir o espetáculo montado pela primeira vez com técnicas de cenografia e iluminação do período em que a obra foi composta.O Festival será realizado entre os dias 18 de julho e 1º de agosto em Juiz de Fora e, paralelamente, no Rio de Janeiro e nas cidades históricas mineiras de Ouro Preto e Tiradentes.
DUO LABÉQUE - UM SHOW DE CONCERTO
(Gazeta Mercantil, 26/06/2004)
Em passagem meteórica pela cidade de São Paulo na última semana do mês de junho, as irmãs francesas K a tia e Marielle Labèque mostraram a que vieram e o porquê de serem tão festejadas nos círculos musicais do mundo todo. Sem dúvida nenhuma, o mais original duo pianísitico de todos os tempos, as “ Irmãs Labèque ” têm aquilo que é essencial aos grandes artistas: imaginação e criatividade.
Após sete anos sem vir ao Brasil, convidadas pela “ Associação para Crianças e Adolescentes com Tumor Cerebral ” – TUCCA para realizar um concerto na Sala São Paulo, as pianistas apresentaram um programa inteiramente dedicado a compositores do século XX, algo que em princípio poderia não ser muito palatável ao grande público e causar um certo estranhamento a uma audiência de um concerto beneficente. Mas, não foi nada disso o que aconteceu: o público simplesmente delirou com as leituras femininamente vibrantes de “ Em blanc et noir ” de Claude Debussy, “ Concerto para dois pianos ” de Igor Stravinsky, “ Ma mère l ' oye ” de Ravel e “ Rhapsody in Blue ” de Gershwin. O entusiasmo era tão grande que os aplausos escapavam mesmo entre as partes das obras – algo considerado um sacrilégio pelos puristas, mas um grande prazer para as intérpretes. Comentando sobre isso após o concerto, Katia confessou-me que adora quando isso acontece, pois é um gesto espontâneo, o melhor sinal de que a música está agradando. Elas absolutamente não se importam com aplausos “ fora de hora ” , muito pelo contrário, entusiasmam-se ainda mais e tocam com mais garra.
Convidado pela TUCCA para produzir o evento, tive a oportunidade de conhecer e administrar pessoalmente todos os aspectos da vinda do duo, em uma agenda repleta de exigências e detalhes. Mas, tudo aquilo que parecia ser exagero na extensa ficha técnica do duo mostrou-se depois realmente indispensável para garantir ao concerto uma qualidade impecável.
Os pianistas já sofrem normalmente com o fato de não poderem carregar seus instrumentos para as salas em que se apresentam. Precisam sempre ensaiar antes dos espetáculos para tornarem-se íntimos dos pianos que ainda não conhecem...
Em um concerto a dois pianos, a situação é ainda mais especial, pois, para que haja um equilíbrio na sonoridade, os instrumentos têm que ser bastante parecidos. E foi justamente esta a nossa maior dificuldade enfrentada. Os dois pianos “ Steinway Hamburg Modelo D ” da Sala São Paulo - embora muito bons - são de gerações muito diferentes, o que exigiu das intérpretes um maior esforço: durante os ensaios, Marielle, que faz o segundo piano, teve que providenciar uma série de adaptações em seu toque, redesenhando-o para procurar obter uma uniformidade sonora.
Para quem observa e ouve as “ Irmãs Labèque ” com maior atenção, à primeira vista algo parece paradoxal: como é que temperamentos tão diferentes podem produzir uma unidade tão perfeita? Elas têm praticamente a mesma idade, a mesma formação musical, praticam e excursionam em duo pelo mundo todo há quase três décadas, mas, em essência, são como água e vinho.
E é justamente essa diferença o que promove o equilíbrio e a unidade musical das duas pianistas.
Pode-se dizer que Marielle, muito mais reservada e retraída que sua irmã mais velha, encarrega-se da “ segurança ” das interpretações. Com gestos concisos e precisos, é ela quem marca os tempos, quem sinaliza com olhares as respirações , enfim, quem garante a “ base de sustentação ”. Já, Katia, de temperamento extrovertido, mais ousada nas interpretações, lança-se a arroubos e extravagâncias durante as execuções, chegando, em alguns momentos a levantar-se completamente do banco do piano em ímpetos de terminar com mais peso ou brilho grandes seqüências de harpejos ou de oitavas. O resultado de toda essa diferença é uma surpreendente unidade. Se não olharmos o palco, temos a impressão de estar diante de um único instrumento!
Um belo exemplo que o Duo Labèque dá aos chamados “ músicos eruditos ” é a importância de se pensar nos aspectos cênicos e gestuais de uma apresentação pública.
Mas, infelizmente, esse departamento é quase sempre negligenciado em música de concerto... A verdade é que nos dias de hoje quanto mais se pensa em concerto como um “ espetáculo ” a ser apreciado , maior a chance de se alcançar sucesso. Nada mais desanimador que assistir a um programa no qual os músicos sentam-se em má postura, vestem-se burocrática ou mesmo desalinhadamente, parecendo não se dar conta que estão em cena e que a audiência sente prazer não só em escutar, mas também em apreciar aquilo que está diante de seus olhos. Com as Labèque, fica claro como discurso imagético complementa e reforça o sonoro.
As duas pianistas cuidam de sua forma física, apresentam-s sempre vestidas, maquiadas e penteadas de maneira criativa e pouco convencional para os padrões da música erudita, exigem uma iluminação cênica que favorece seus melhores ângulos, sendo, portanto, extremamente cuidadosas com a bela imagem que criaram e têm a preservar.
Essa marcante atitude de contemporaneidade, agregada à sua imensa competência musical, são certamente fatores determinantes pata o grande sucesso das charmosas “ Irmãs Labèque ”.
Katia e Marielle Labèque realizaram um concerto beneficente promovido pela Associação para Crianças e Adolescentes com Tumor Cerebral - TUCCA no dia 23 de junho de 2004, na Sala São Paulo, com patrocínio da Novartis.
(Gazeta Mercantil, 13/06/2004)
Confesso que minha curiosidade em conhecer pessoalmente o “ tio ” era bastante grande, mas não imaginava que a experiência pudesse ser tão grata e cheia de surpresas. A primeira delas veio logo de cara, quando nos apresentamos: mal acabara de subir o último lance de escada que dá para o seu simpático apartamento no bairro de Pinheiros, em São Paulo, quando levei um beijo carinhoso na testa, gesto que recebi como uma espécie de “ benção ” de uma personagem singular, sábia e cheia de histórias de música para contar.
Laércio de Freitas é assim. Transborda afeição e entusiasmo em tudo que fala ou toca. As próximas horas – mal sabia eu - seriam de conversa gostosa, para a qual eu ia procurando dar uma linearidade ou um fio condutor que sempre me escapavam... pois o “ tio ” , entre tantas memórias e inquietações de artista, pulava do presente para os anos 1950, avançando para os anos 1970/80, falando com a mesma ênfase de Liszt, Radamés Gnattali, Vinícius de Morais, Alaíde Costa e de suas duas gatas de estimação, com as quais brincava e acariciava enquanto conversávamos.
Laércio de Freitas nasceu em Campinas, SP, em 20 de junho de 1941, tendo recebido ainda na infância, o apelido de “ tio ” dos colegas de basquete, esporte que logo e sabiamente resolveu abandonar para preservar suas mãos para o seu piano. Sua mãe tocava violino e incentivou-o a estudar piano desde os cinco anos de idade. Dos sete aos dezesseis, freqüentou o Conservatório Carlos Gomes em Campinas, onde recebeu seu diploma.
Sobre interpretação musical, Laércio tem muito a dizer: lembra-se de uma experiência auditiva decisiva que teve naquela época. Estando naquele momento preparando a “ Dança dos gnomos ” para piano de Liszt, soube um dia que a música iria tocar na rádio. Nunca a tinha escutado em gravação. Com muita curiosidade, preparou-se então para a audição seguindo a partitura. Levou um grande susto, pois mal pôde reconhecer a música, tamanha era a discrepância entre os andamentos da gravação e aquele que estava habituado a tocar. Hoje ele reconhece a experiência como o início de um processo pessoal de busca constante do aprimoramento de sua acuidade auditiva.
Quando se ouve uma gravação de Laércio, é impossível ficar indiferente. O “ tio ” sabe dar tempo ao tempo no discurso musical. Fomos ouvindo juntos algumas preciosidades, como uma série de músicas brasileiras para piano solo, gravadas em 1984: “ Casinha pequenina ” , “ Subindo ao céu ” , “ Terna saudade ”. Durante a audição, ele comentava que vive falando para os jovens que estão começando, que adoram arrebatar a audiência com um monte de notas, que é preciso ir com calma, não exagerar. Costuma brincar que ninguém recebe cachê proporcionalmente à quantidade de notas tocadas... Então, recomenda economizar recursos, mostrando somente o essencial.
Comentou, ainda, que há uma diferença muito grande entre força e intensidade na interpretação musical, sendo apenas esta última desejável. A umas tantas, sintetizou: “A música se sabe como ela é”, reforçando a idéia que existe uma maneira natural de se interpretar, é só se deixar levar por ela e não cometer excessos.
Entre o final dos anos 40 e início dos anos 50, havia na Rádio Tupi de São Paulo um importante programa de variedades infantis chamado “Clube Papai Noel”, apresentado por Homero Silva. Laércio participou dele várias vezes e também de “Gurilândia”, o primeiro programa infantil da TV Tupi, na mesma época. Outras experiências marcantes em sua formação foram suas participações nas bandas de baile de formatura comandadas pelo maestro Erlon Chaves. Ainda na Tupi, manteve estreito contato com o “Regional do Rago”, naquela época, o único regional de choro com violão elétrico em sua formação.
Em 1969, seguiu para uma temporada de dois anos no México, onde foi chamado para substituir Luiz Eça no festejado Tamba Trio, que acabou tornando-se o Tamba Quatro. Acabada a temporada, podia escolher entre seguir carreira na Europa ou nos Estados Unidos, mas preferiu voltar à terra. Instalando-se no Rio de Janeiro, foi acionando seus contatos, tocando na recém-inaugurada casa, o “Flag”, arrumando trabalhos a partir do reencontro que teve com Erlon Chaves e Luiz Carlos Vinhas e, em São Paulo, com os integrantes da banda deixada pelo maestro Enrico Simonetti.
Laércio é antes de tudo um músico de choro. E atribui sua paixão a esta música tão caracteristicamente brasileira àquele que diz ser seu “mentor de choro” – Esmerandino Salles, o Esmê. A ele dedicou uma música intitulada “Ao nosso amigo Esmê”, uma das faixas do álbum “São Paulo no balanço do Choro”, lançado em 1980 pelo Selo Eldorado. Conta que quando a música ficou pronta, tocou-a para Esmê e este pediu para repeti-la várias vezes, porque a tinha achado muito bonita. Quando soube qual era o título, começou a chorar copiosamente de emoção, levando Laércio também a chorar junto com ele.
Outras passagens marcantes na vida do músico foram suas participações na legendária Orquestra Tabajara de Severino Araújo, onde atuou por dois anos, e em “O Sexteto” de Radamés Gnattali. Com este grupo, gravou em 1975 um disco pela Odeon - “Série Depoimento – vol. 2” – simplesmente imperdível. Vale a pena ouvir, entre outras, as faixas “Urubu malandro”, “Meu amigo Tom” e “Divertimento para 6 instrumentos”, nas quais Laércio demonstra um belíssimo desempenho em duo pianístico com Radamés.
“Tio” conta que, devido a uma postura de excessiva humildade, foi chamado de “burro” pelo próprio Radamés, pois, ao receber a partitura do compositor, em respeito ao mestre, sem nada questionar, estudou por 15 dias seguidos a parte do segundo piano, considerada mais fácil, achando que era aquilo que cabia a ele. Somente depois, soube pelo próprio Radamés que era o primeiro piano que tinha sido escrito para ele e o compositor faria o segundo...
Entre suas atuações mais recentes, destacam-se o arranjo de “Aquarela do Brasil” de Ari Barroso, gravado pela OSESP com a Banda Mantiqueira e a composição e a direção musical da ópera “Portinari”, encomendada pelo SESC Ipiranga, em São Paulo, em 2003. Para “Portinari”, Laércio criou lindos temas para as diferentes seqüências do roteiro e para suas personagens, além de uma música incidental.
Muito criativo também é seu duo com o clarinetista Nailor Proveta. Durante nosso papo, escutamos juntos o registro de um recente recital do duo no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Entre outras coisas, pude aprender em detalhes como ele fez para obter tão bom resultado na sonorização do recital, contando como posicionou os microfones do piano para “não somar para mais, mas para melhor”, demonstrando sua constante preocupação com os excessos freqüentemente cometidos em música e acústica.
Próximos planos? Muitos! Entre eles, um que merece especial atenção. Trata-se de um projeto pedagógico da maior importância: um curso de arranjo “comme il faut”. Não um workshop, mas um curso completo com a duração de 6 meses, com carga horária de 8 horas semanais. Laércio diz que planeja algo aprofundado, uma oportunidade de transmitir aos músicos interessados tudo aquilo que aprendeu ao longo de sua vida artística, trazendo importantes conceitos - não só vinculados a questões musicais - mas também à acústica, assunto que vem pesquisando muito ultimamente e que considera negligenciado nos cursos de arranjo. Sempre humilde, diz que nas aulas não quer “perder tempo” mostrando aquilo que faz (!), mas sim estimular os alunos a desenvolverem a realização de muitos exercícios práticos voltados para eles próprios, aprendendo com seus erros e acertos, lapidando sua própria linguagem. O curso será, sem dúvida, um presente sem precedentes que este grande intérprete, compositor, maestro e arranjador vai oferecer aos privilegiados músicos que nele se inscreverem. Por se tratar de um projeto que exigirá do mestre um semestre inteiro e muitas horas de dedicação, será necessária a parceria com uma instituição que possa organizá-lo e viabilizá-lo financeiramente. Com a bola, patrocinadores e escolas de música do Brasil!
FESTIVAL DE INVERNO DE CAMPOS DO JORDÃO
(Gazeta Mercantil, 01/06/2004)
Nosso mais tradicional festival de música – o Festival de Inverno de Campos do Jordão – chega à sua 35 ª edição reformulado e com novo título: “ Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão ” .
As principais mudanças contidas no atual conceito desse verdadeiro empreendimento pedagógico-musical do Governo do Estado de São Paulo refletem o anseio de seus mentores em resgatar uma identidade bastante similar àquela que o evento já teve em seus primórdios: reforçar o caráter erudito do festival e torná-lo um importante ponto de encontro e intercâmbio entre músicos profissionais, bolsistas e público.
O anseio por uma revitalização do festival remonta ao ano passado, ocasião em que a secretária da cultura do Estado de São Paulo, Cláudia Costin, fez um primeiro convite ao regente Roberto Minczuk para dirigi-lo. Contudo, somente este ano ele conseguiu abrir espaço em sua agenda para exercer sua direção artística.
Uma das razões que levaram Costin a pensar em Minczuk foi justamente o fato dele próprio personificar um exemplo bastante positivo para as novas gerações de bolsistas que se inscrevem no projeto. O regente tem uma história de vida intimamente ligada ao festival. Nele, foi bolsista pela primeira vez aos 11 anos de idade, recebeu grandes incentivos, trocou muitas experiências com colegas e professores e acabou posteriormente atingindo um patamar de reconhecimento internacional tão alto, a ponto de ter conquistado nada menos que o posto de regente associado da Orquestra Filarmônica de Nova York, além d e ser o atual diretor artístico adjunto e regente associado da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – a campeã OSESP. Aliás, uma curiosa pesquisa realizada entre os membros daquela orquestra revela que mais de 70% de seus seletos músicos registram em seu currículo participações como bolsistas em Festivais de Campos do Jordão do passado.
Outro fator decisivo que levou a secretária a insistir no nome de Minczuk para a direção do festival tem a ver com o alto prestígio internacional alcançado pelo regente, o que certamente facilita os contatos com os artistas e acaba contribuindo para diminuir consideravelmente os custos de produção de um evento dessa envergadura. Muitos músicos aceitaram vir a Campos do Jordão por cachês bastante acessíveis devido à credibilidade de seu diretor artístico e por considerarem que vale a pena a participação pela qualidade do projeto e pela riqueza do intercâmbio. O regente John Neschling, por exemplo, vai ministrar seu curso de regência graciosamente.
Na opinião de Minczuk, o festival não deve ser uma simples temporada de concertos na qual os artistas vêm, realizam seus concertos e voltam para casa. A idéia é justamente que eles se engajem como residentes do festival. É fundamental que sua presença seja não apenas artística, mas que haja também um envolvimento pedagógico de seus participantes.
O compositor residente Marlos Nobre, por exemplo, terá várias de suas obras apresentadas, além de escrever uma peça inédita durante sua estada na cidade. Grupos residentes como o Quinteto de Metais da Filarmônica de Nova York, o Duo Con-Texto (Suíça) e o Quarteto Amazônia, músicos como Boris Belkin (Rússia), Antonio Menezes e Gunter Klaus (Alemanha), além de se apresentarem em concertos, também ministrarão aulas individuais e master classes abertos ao público. E assim farão a grande maioria os músicos profissionais convidados, relacionando-se com a audiência e com os músicos bolsistas em uma atitude de aproximação.
Do ponto de vista administrativo, o festival ganhou também em agilidade. As inscrições para o processo seletivo de bolsas de estudo estão sendo realizadas exclusivamente pela Internet. Como resultado desta inovação, das habituais 300 inscrições em anos anteriores, houve um salto impressionante: 1171 inscritos até o momento. A divulgação nesses padrões atualizados fez ainda com que o festival recebesse 170 inscrições de músicos latino-americanos de países como Peru, Uruguai, Equador e Argentina, que fizeram seus testes em Buenos Aires na semana passada, com a presença de Roberto Minczuk na banca examinadora. Além disso, houve um número significativo de inscrições em países como Estados Unidos e França. As audições nacionais serão realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, agora em junho.
Este ano, o orçamento do festival aproxima-se dos 2,5 milhões de reais, bancados pelas empresas Tim e SABESP, além de uma parcela do próprio Governo do Estado de São Paulo. Os apoios vêm da Suzano, Nestlé, Consulado Geral dos Estados Unidos, Revista Época, Imprensa Oficial, Prefeitura de Campos do Jordão e Associação Amigos Tom Jobim.
Entre todas as novidades apresentadas nesta nova etapa do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, o aspecto mais alentador vem de uma declaração da secretária Cláudia Costin: o festival deixa de ser um evento isolado, tornando-se um programa da Secretaria de Estado da Cultura para os próximos três anos, com Minczuk no posto de diretor artístico. De fato, o regente revela que as programações de 2005 e 2006 já estão sendo delineadas, com uma antecedência que pode parecer exagerada para os padrões brasileiros, mas um procedimento corriqueiro no primeiro mundo. Trata-se de uma postura positiva e transformadora, pois garante a continuidade e o aprimoramento do festival, em um país onde iniciativas bem-sucedidas como esta freqüentemente padecem ao sabor das inúmeras imprevisibilidades a que estão sujeitas.
Os próximos festivais deverão ser sempre temáticos. Em 2004, a programação gira em torno de dois compositores: J. Haydn (1732-1809) e Marlos Nobre. Haydn, por ser um importante representante do classicismo, apresentando uma obra camerística e orquestral essencial para a formação do músico erudito, ainda não suficientemente explorada, segundo Minczuk. E o pernambucano Marlos Nobre, 65, por ser considerado um dos mais importantes compositores brasileiros vivos em atividade. Os eventos acontecerão de 3 a 24 de julho em diversos espaços da cidade: auditório Cláudio Santoro, Palácio Boa Vista, igrejas e também ao ar livre, na Praça do Capivari.
(Gazeta Mercantil, 22/05/2004)
Para muitos, o nome de Bidu Sayão (1902-!999), apelidada de “o rouxinol do Brasil” por Mário de Andrade, sempre foi tão remotamente legendário que imaginava-se que artista já havia desaparecido há muito tempo, quando no final da década passada a imprensa brasileira divulgou notícias sobre sua pacata existência, já nonagenária, em um pequeno lugarejo do estado norte-americano do Maine. Até alguns aficionados se surpreenderam em saber que Bidú ainda vivia!
A soprano barsileira é considerada pela crítica internacional como ninguém menos que a maior cantora lírica brasileira de todos os tempos. Estudou em Nice com o professor Jean de Reszke (1850-1925), iniciando seu estrelato ainda jovem na Europa e na América do Sul. Mas sua grande projeção aconteceu nos palcos norte-americanos a partir da década de 1930, onde, incentivada pelo também legendário maestro Arturo Toscanini (1867-1957), ao longo de duas décadas, interpretou 22 papéis, integrando o elenco do prestigiado Metropolitan Opera House de Nova York. Apresentando-se naquela casa mais de 200 vezes. Segundo a crítica especializada, entre seus grandes papéis, os que mais se adaptavam à sua voz soprano coloratura considerada “pequena” eram Manon, Violetta, Mimi e Susanna.
No hall do Metropolitan, pode-se ter uma idéia da dimensão prestígio alcançado pela artista. Nele, há um enorme quadro em sua homenagem, um orgulho para os brasileiros que freqüentam o nobre espaço.
Vale lembrar que - embora tenha feito sua vida longe do Brasil, vivendo grandes papéis líricos- sua afinidade com a música de Villa-Lobos (1887-1959) produziu um fato interessante. O compositor brasileiro considerava perfeita a sua interpretação das “Bachianas Brasileiras número 5”, tanto que a gravação da obra feita pela cantora recebeu o prêmio “Hall of fame” da National Academy of Recording Arts and Sciences. Chegou a ser o disco erudito mais vendido nos Estados Unidos por dois anos seguidos.
Por uma questão de confessado orgulho, antes que as limitações próprias da idade denunciassem qualquer tipo de desgaste em sua imagem, a cantora resolveu sabiamente retirar-se completamente de cena em 1958, aos cinqüenta e poucos anos de idade, preservando assim sua impecável imagem, como também fizeram estrelas de outras paragens artísticas, como Greta Garbo e Doris Day.
Bidu afirmava que não gostaria de permanecer até o momento em que fosse convidada a retirar-se dos palcos. Não suportaria isso. Coincidentemente, despediu-se dos palcos norte-americanos com a mesma obra com que havia estreado em com Toscanini em1936 - “ La Demoiselle Élue”, de Claude Debussy.
Mas, o mais curioso é que, no Brasil, o seu longo ostracismo foi ironicamente quebrado quando a Escola de Samba Beija-Flor do Rio de Janeiro resolveu homenageá-la em 1996, trazendo-a para o desfile na avenida. Bidu, então com 94 anos de idade, tornou-se finalmente conhecida de milhões de espectadores da TV brasileira, uma geração que jamais havia ouvido falar da diva. Não por acaso, pois no Brasil, sua última aparição tinha sido em São Paulo, em 1946... Deu muitas entrevistas, tornando-se ironicamente “celebridade global” no Brasil, pela segunda vez, 50 anos depois! Realizou seu antigo sonho de rever a Baía de Guanabara mais uma vez e pôde deixar este mundo em paz, pouco tempo depois, em 1999.
Dona de uma voz límpida e delicada, a soprano brasileira Bidu Sayão foi uma das mais respeitadas artistas do Metropolitan Opera de Nova York. Seu prestígio pode ser observado no próprio hall do teatro, que ostenta um imenso quadro em sua homenagem. Ao longo de sua carreira, conviveu e trabalhou com as maiores personalidades artísticas deste século, como o maestro Arturo Toscanini, um de seus grandes admiradores — ele a chamava de "la piccola brasiliana" —, Maria Callas, a pianista Guiomar Novaes e Carmem Miranda.
Além disso, foi a parceira favorita de Villa-Lobos, numa carreira que durou 38 anos. Nesse período, emprestou sua voz e imortalizou a Bachiana n.º 5, das Bachianas Brasileiras, as peças mais conhecidas e mais amadas do compositor. Esta, que foi considerada pelo maestro como a mais perfeita gravação da obra, foi escolhida para o prêmio Hall of Fame, dado pela National Academy of Recording Arts and Sciences. Clássico brasileiro mais conhecido no mundo, por dois anos seguidos foi o disco mais vendido nos Estados Unidos. Bidu Sayão iniciou seus estudos musicais no Rio de Janeiro e aos 18 anos fez sua estréia no Teatro Municipal da cidade. Iniciou sua carreira internacional na Romênia, e aperfeiçoou seu canto em Nice, na França, com Jean de Reszke, o mais famoso professor da época, adquirindo a técnica perfeita e a delicadeza que viriam a caracterizá-la. Em Roma, cidade que a viu nascer para o teatro lírico, foi surpreendida por um convite para que abrisse a temporada do Teatro Constanzi. Sua interpretação de Rosina em O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, foi feita de forma tão admirável que lhe rendeu a entrada definitiva no rol dos grandes intérpretes líricos da Europa. Em 1925, de volta ao Brasil, cantou novamente O Barbeiro de Sevilha antes de inaugurar outra temporada do Teatro Constanzi. Depois disso, atuou nos mais importantes teatros do Velho Mundo, como o Teatro São Paulo, em Portugal, Teatro Opera Comique de Paris e o Alla Scala de Milão, por exemplo. Excelente atriz, sua força interpretativa garantiu-lhe viver 22 heroínas diferentes, entre elas, Ceci (O Guarani, Carlos Gomes), Gilda (Rigoletto, Verdi), Mimi (La Bohéme, Puccini), Suzana (Bodas de Fígaro, Mozart) e Violeta (La Traviata, Verdi).
Em 1936, a soprano brasileira Bidu Sayão fez sua grande estréia para o público norte-americano, cantando La Demoiselle Élue, de Debussy, em apresentação regida pelo maestro Toscanini no Carnegie Hall, em Nova York. Em 1937, estreou no Metropolitan Opera House de Nova York (onde foi grande figura por mais de 15 anos), cantando o papel título da ópera Manon, de Jules Massenet. O volume de convites que recebeu para cantar, na época, fez com que interpretasse 12 papéis diferentes em 13 temporadas. Em fevereiro de 1938, cantou para o casal Roosevelt na Casa Branca. Na ocasião, o presidente chegou a oferecer-lhe a cidadania americana — rejeitada na hora por Bidu, que sempre cultivou o sonho de terminar a carreira e a vida como brasileira.
Encantados com Bidu Sayão, os americanos não a deixaram partir. Continuou a dar concertos através de todo o país, sempre colhendo triunfos, sendo, por isso, chamada pelos americanos de "The Charming Singer". Em agosto de 1955, obteve um de seus maiores sucessos cantando no Hollywood Bowl. Com a Calgary Symphony Orchestra, foi chamada de "Glamorous Soprano Star". Entre idas e vindas, o "Rouxinol Brasileiro" — apelido que ganhou do escritor Mário de Andrade — apresentou-se diversas vezes em palcos nacionais. Esteve no Rio de Janeiro em 1926, 1933, 1935 e 1936. Em São Paulo, apresentou-se nos anos de 1926, 1933, 1935, 1936, 1937, 1939, 1940 e 1946. Durante essas temporadas, cantou O Barbeiro de Sevilha, Rigoletto, Matrimônio Secreto, Um Caso Singular, Soror Madalena, O Guarani, Manon, Romeu e Julieta, I Puritani, La Traviata, La Bohéme e Lakmé.
Em 1957, Bidu Sayão decidiu encerrar sua carreira artística. Com a mesma La Demosele Élue com que entrou nos Estados Unidos, ela encerrou a carreira em 1958, ainda em perfeita forma e recebendo as maiores homenagens e melhores críticas dos jornais. Em 1959, mais de um ano após ter encerrado a carreira nos palcos e em público, fez uma gravação da Floresta Amazônica, de Villa-Lobos, atendendo ao pedido do compositor. Com ela, Bidu Sayão encerrou definitivamente a carreira, definindo este último trabalho com seu "canto do cisne".
Em 1995 veio ao Rio de Janeiro para ser homenageada pelo enredo da escola de samba Beija-Flor. Antes de ir embora, não escondeu sua vontade de retornar ao Brasil. Bidu Sayão morreu em 1999, aos 96 anos, no Estado do Maine, local onde viveu durante a maior parte do tempo, nos Estados Unidos. Seu maior desejo era visitar o Brasil pela última vez. Sonhava em ver a Baía de Guanabara antes de morrer e planejava isto para celebrar seu centenário. Após uma longa vida repleta de glórias e triunfos, a cantora não conseguiu realizar esse último desejo.
(Gazeta Mercantil, 14/05/2004)
Nos dias 27 e 28 de maio, às 21 horas, no SESC Vila Mariana, acontecerá a estréia mundial do espetáculo “Ways of the Voice - Caminhos da Voz”, um trabalho conjunto do compositor belga Leo Kupper e da cantora e pesquisadora Anna Maria Kieffer. Ambos desenvolveram um conjunto de obras que priorizavam novos caminhos para a criação vocal a ser usada como matéria prima na elaboração de obras musicais eletroacústicas e que tiveram a colaboração do baixo Eduardo Janho-Abumrad.
Uma vez gravadas, as criações vocais elaboradas pelos cantores foram processadas digitalmente e compostas por Leo Kupper, dando origem a quatro obras: “Rezas Populares do Brasil”, “Annazone”, “Amkéa” e “Anamak”. Embora tratados de forma abstrata, todos os materiais iniciais destes trabalhos foram desenvolvidos a partir de temas brasileiros.
O projeto conta ainda com a participação de três artistas plásticos - Alessandra Galasso, Eduardo Campos e Chico Escher – o assistente tecnológico-musical Vanderlei Lucentini, com direção cênica de Caio Gaiarsa, diretor cênico radicado há muitos anos na Europa, onde vem trabalhando à frente de grandes produções líricas, em espaços nobres como a Opéra National-La Monnaie (Bruxelas), Opéra National de Lyon e Opéra de Rennes (França).
No palco, contracena com Anna Maria Kieffer o baixo Eduardo Janho-Abumrad, respeitado solista lírico brasileiro, com uma longa trajetória internacional, realizando importantes papéis em óperas na Bélgica, Itália, Alemanha e Suíça. Gravou “ Ways of the Voice” pelo selo Pogus, em Nova York, agora editado em CD-livro pela Akron, em São Paulo.
O grupo desenvolveu experimentos que serviram como subsídio para a criação das obras visuais em movimento que integram o projeto “Ways of the Voice”. Neles, buscaram-se planos de encontro entre as linguagens musical e visual e suas formas de composição, partindo da análise de elementos estruturais, sensíveis, e de analogias físicas e simbólicas. As imagens têm sido originadas por meios diversos, como vídeo, pintura, processos digitais, sendo compostas, processadas e animadas por sistema computadorizado.
A obra “Rezas populares do Brasil” foi composta a partir de rezas de cura recolhidas no país. “Annazone” traz recriações vocais relativas a pássaros nativos e a seu entorno. “Amkea” remete a temas da natureza como animais, fundo do mar, árvores e pedras do Brasil. Finalmente, “Anamak” foi composta a partir de cantos indígenas brasileiros históricos e de sons captados na floresta tropical. O nome da obra deriva da palavra tupi “anamã”, designativo de nação.
A dupla de criadores do espetáculo exibe um currículo bastante consistente, com muitos empreendimentos voltados para a criação musical. Leo Kupper fundou o "Studio de Recherches et de Structurations Électroniques Auditives" em Bruxelas, em 1967, com o objetivo de desenvolver pesquisas que possibilitassem criar um mundo sonoro eletrônico estimulado pelo público. Desenvolve pesquisas inovadoras sobre a percepção psico-acústica do espaço, sobre música eletroacústica, digital e mista, tendo suas obras apresentadas nos principais festivais de arte contemporânea do mundo.
A mezzo-soprano Anna Maria Kieffer, entre outras muitas atividades, tem se dedicado obstinadamente à pesquisa de técnicas estendidas de voz utilizadas na música contemporânea acústica e eletroacústica, tendo vivenciado como intérprete e colaboradora o movimento eletro-acústico no Brasil. Vem apresentando inúmeras primeiras audições mundiais de obras de compositores brasileiros, bem como primeiras audições nacionais de obras de compositores como John Cage, Luciano Berio, Luigi Nono.
(Gazeta Mercantil, 10 /05/2004)
Nos dias 18 e 19 de maio, São Paulo terá a rara oportunidade de assistir à execução da integral de um dos mais populares ciclos compostos por J.S.Bach (1685-1750) – os “Concertos de Brandenburgo”.
Os eventos acontecem no Teatro Cultura Artística, dentro da programação de sua temporada internacional, com o grupo “Concerto Italiano”, tendo como regente o competente Rinaldo Alessandrini.
Para as apresentações na cidade, o grupo virá unicamente com os instrumentos de cordas, tendo como solista ao cravo o próprio regente. No programa inteiramente dedicado a Bach, além da integral dos seis “Concertos de Brandemburgo”, serão tocadas também, seis “Sinfonias para Cantatas”.
Para os interessados em mergulhar com maior profundidade na estética de um compositor, nada melhor que a audição de ciclos completos de suas obras, as integrais. A experiência costuma ser no mínimo reveladora, representando uma chance de se obter uma visão panorâmica de um determinado “pensamento”, ou faceta do compositor. Os ciclos de obras normalmente fornecem pistas, tornam mais claros e sintetizam projetos artísticos completos em torno de diferentes poéticas e fases de seu criador. Em São Paulo, felizmente já tivemos muitas outras ocasiões similares, que acabaram tornando-se históricas, como a execução, em quatro recitais, dos 48 Prelúdios e Fugas de “O cravo bem temperado” de J.S.Bach, pelo pianista austríaco Jörg Demus, no MASP, em 1971 e - bem mais recentemente - os cinco “Concertos para piano e orquestra” de Beethoven, tocados no ano passado pelo também austríaco Rudolf Buchbinder, na Sala São Paulo.
Introduzindo critérios inovadores na execução da música instrumental e vocal italiana dos séculos XVII e XVIII, o grupo “Concerto Italiano” tem obtido grandes elogios da crítica especializada internacional, atraindo sempre um público diferenciado aos seus espetáculos.
Para se ter uma idéia, suas apresentações vêm angariando generosos adjetivos como “Beleza Mágica” (Revista Diapason), “Bach ensolarado e profundo. Pura emoção musical como raras vezes se experimenta. Uma exibição de sonoridades extraordinárias” (“L'événement de jeudi”). Já, a prestigiada publicação francesa “Le monde de la musique”, referindo-se à atuação de Alessandrini, regente e mentor do grupo, descreveu “uma realização incontestável, um intérprete iluminado”.
Tantas boas referências só nos fazem pensar que “Concerto Italiano” encontra-se entre os melhores grupos europeus de música barroca da atualidade. Será certamente enriquecedora a audição da integral dos “Concertos de Brandenburgo” ao vivo, na versão de Rinaldo Alessandrini.
(Gazeta Mercantil, 03/05/2004)
Se você descende de italianos, gosta de música ou tem uma certa idade para lembrar-se das famosas temporadas brasileiras da cantora Rita Pavone na TV Record ou de Gigliola Cinquetti cantando “Dio, come ti amo”, tem tudo para emocionar-se assistindo ao espetáculo “Comunità – O Musical”, que acaba de estrear em São Paulo.
Mas, se você não corresponde exatamente a esse perfil, é bem provável que também curta muito o espetáculo, dele saindo com seu astral mais elevado, recordando-se e até cantarolando alguns dos hits apresentados, todos eles representativos de uma época em que a música popular italiana estava no auge de sua popularidade, na década de 1960.
“Comunità” é um musical memorável, pois oferece bons momentos de entretenimento em competentes padrões de direção e produção.
O elenco de atores-cantores, todo ele jovem, é dirigido por Jarbas Homem de Mello em dobradinha com Marconi Araújo, na direção musical. O texto e a produção são do experiente Cláudio Magnavita, que também assinou “Cole Porter – ele nunca disse que me amava”, “Company”, “Constellation”, “Cantoras do Rádio” e “Caminito”.
Embora muito reveladora de interessantes aspectos da imigração italiana no Brasil no pós-guerra, mostrando a influência desses imigrantes no dia-a-dia dos jornais que circulavam na capital do país, a trama do espetáculo funciona apenas como pano de fundo para a verdadeira essência do espetáculo, que é o seu roteiro musical: são ao todo 22 canções, como “Che sará”, “El mondo”, “O mio signore”, “Canzone per te”, “Datemi un martelo”, “Al di la”, “Dio come ti amo” e “Per amore”, entre outras.
Os atores-cantores - vindos de uma nova e arejada safra de montagens como A “Bela e a Fera”, “Les Miserables”, “O Mágico de Oz”, “Godspell”, “Grease” - estão muito bem preparados cência e vocalmente, fascinando a platéia, que aplaude incansavelmente a cada número apresentado, e de pé ao final do evento de duas horas de duração.
Não se pode deixar de desatacar também a precisa atuação do conjunto de cinco músicos, também fundamental para o êxito do musical.
“Comunità” cumprirá certamente com sucesso sua temporada até 1º de agosto no Teatro Itália, no Edifício Itália, região central de São Paulo, valorizando um dos grandes símbolos da presença da comunidade italiana na cidade.
“Comunità – O Musical”
Elenco - Frederico Silveira, Mariana Elisabetsky, Lôvvie, Simone Gutierrez, Alessandra Linhares, Luiz Araújo, Adriano Fanti, Heloísa de Palma, Jonatan Mota, Leonardo Fernandes, Lorenzo Martin, Guilherme Terra e Carlos Martin.
Orquestra - Marcel Balieiro (maestro), Abelita Brandão (piano), Diogo Carvalho (baixo e guitarra), Nelton Essi (bateria) e Paulo Garcia (sopros).
(Gazeta Mercantil, 30/04/2004)
Os nostálgicos fãs de música brasileira - principalmente aqueles felizardos que viveram os anos 1950 e 1960 - devem se perguntar com freqüência onde é que foram parar as grandes vozes femininas da nossa música popular, ou se é que elas ainda existem... Pois tiveram o privil égio de presenciar a aparição e o ocaso quase sempre prematuro de verdadeiras estrelas como Elizete Cardoso, Dolores Duran, Maysa, Sylvia Telles, Elis Regina.
A verdade é que, de uns tempos para cá, parece que o prestígio e o sucesso das cantoras brasileiras está diretamente relacionado à quantidade de gritos, pulos e requebros que as tais excessivas e excitadas figuras exibem nos palcos e nas TVs por esse Brasil afora.
A boa notícia, contudo, é que – embora a mídia não divulgue suficientemente – existem sim, nos dias de hoje, personalidades vocais femininas pra ninguém botar defeito. Desde a década de 1980, por exemplo, vem trilhando um caminho bastante original a cantora Ná Ozetti, uma autêntica especialista em bom gosto musical, alguém que canta “indo atrás de cada nota, como se a melodia fosse um bordado”. E quem usou esta em metáfora em seu material de divulgação foi justamente a cantora sobre quem estamos comentando, pois foi com estas palavras que ela - a paulistana Mônica Salmaso – descreveu seu processo de interpretação da música “Assum Branco”, de José Miguel Wisnik, uma das faixas presentes no memorável CD intitulado “Iaiá”.
É precisamente esta a diferença fundamental entre um artista e um músico apenas correto. Este simplesmente interpreta burocraticamente, deixando rolar o “automático”. Nada mais entediante... Por outro lado, quando ouvimos alguém “indo atrás de cada nota” em um bom arranjo, ficamos absolutamente conectados à expressão do discurso musical, apreciando cada frase, cada respiração, cada articulação, cada detalhe harmônico.
Mas não era justamente esse o segredo de Elizete Cardoso e de Elis Regina? Para aqueles das novas gerações, felizmente elas deixaram um bom número de registros fonográficos a conferir!
Um detalhe fundamental para ao sucesso de “Iaiá” é que Mônica Salmaso, além de possuir um timbre vocal e uma personalidade musical bastante marcantes, cercou-se da criatividade de músicos e arranjadores de primeira linha para a realização deste álbum, que exala brasilidade por todos os poros.
Recomendo particularmente a audição atenta de faixas como “Estrela de Oxum” (Rodolfo Stroeter / Joyce), na qual destaca-se o envolvente e delicado suporte dado pelo violão de Paulo Bellinati. A afinada parceria de Salmaso com o instrumentista é antiga, remontando ao CD “Afro-Sambas” (1996) de Baden Powel e Vinícius de Moraes. Os dois parceiros brilham novamente na interpretação da comovente “Por toda a minha vida”, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, a sexta faixa do disco.
Outro destaque do disco está no nostálgico acoredeão de Toninho Ferragutti, na faixa “Vingança”, de José Maria de Abreu e Francisco Mattoso. Especialmente nesta música, é impressionante o domínio de Mônica e dos músicos no que se refere à preservação das grandes linhas melódicas, controle da dinâmica, sempre prendendo a atenção do ouvinte.
“Assum branco”, de J. Miguel Wisnik recebeu um arranjo camerístico, com uma presença marcante do violoncelo, sendo especialmente bonito o contraste da passagem desta faixa para a seguinte – “Cidade Lagoa”, tocada com muito swing pelo Quinteto Sujeito a Guincho.
Um show de criatividade fica por conta do impecável e ousado arranjo pianístico de André Mehmari para “Sinhazinha”, de Chico Buarque, uma releitura da música em que ele e Mônica exercem plenamente sua autonomia, balizados por surpreendentes timbres e harmonias produzidas pelo piano. Ouvindo-se esta faixa, não é nada difícil de se entender o porquê de ambos os músicos terem vencido o disputadíssimo “Prêmio Visa de Música Brasileira”.
Pois é, os saudosos dos bons tempos da MPB certamente vão gostar de saber que nem tudo está perdido. “Iaiá” revela com variada generosidade um pouco daquilo que pode haver de melhor e mais digno na interpretação de nossa música popular. Sem sombra de dúvida, trata-se de um disco imperdível. Para eventual aprimoramento de edições futuras, fica aqui apenas uma observação quanto ao encarte do CD: o pequeno corpo das letras do texto em sobreposição a cores muito fortes dificultam muito sua leitura.
Mônica lança “Iaiá” em São Paulo, com três shows no TUCA, nos dias 7, 8 e 9 de maio.
(Gazeta Mercantil, 12/04/2004)
EUROPEAN UNION YOUTH ORCHESTRA APRESENTA-SE EM SÃO PAULO
SOB REGÊNCIA DE VLADIMIR ASHKENAZY, NOS DIAS 18, 21 E 22 DE ABRILConcertos acontecem na Sala São Paulo, Parque do Ibirapuera e Theatro Municipal
Considerada pelo maestro inglês Sir Colin Davis como um dos melhores conjuntos sinfônicos do mundo, a European Union Youth Orchestra (EUYO) realiza uma turnê brasileira no mês de abril sob regência de seu diretor musical, o maestro e pianista Vladimir Ashkenazy . Em São Paulo, serão três apresentações: dia 18 de abril , às 19h , na Sala São Paulo , em concerto com a renda revertida para as obras assistenciais da Congregação Israelita Paulista – CIP; dia 21 de abril , no Parque do Ibirapuera , às 11h, com entrada franca, em comemoração aos 450 anos da cidade; e dia 22 de abril , no Theatro Municipal , às 21h .
A passagem da orquestra pelo Brasil inclui ainda datas em Salvador (Teatro Castro Alves, 15 de abril) e Rio de Janeiro (Sala Cecília Meireles, 17 de abril) e é uma iniciativa das representações da União Européia no Brasil, com patrocínio da Varig/Varig Log , contando também com o apoio de DaimlerChrysler , Café do Ponto , Telefônica e Unilever.
A EUYO é formada por músicos entre 17 e 24 anos de idade, nascidos em um dos quinze países da União Européia e selecionados a cada ano entre cerca de quatro mil candidatos vindos das principais escolas de música do continente. Os responsáveis pela escolha são o professor Lutz Köhler, diretor de estudos da EUYO e David Strange, chefe do naipe de cordas. Um detalhe interessante é que todos os integrantes da orquestra participam ao lado dos novatos das audições anuais, para manterem seus lugares.
“Dispomos de um alto nível de musicalidade, afinidade instrumental e comprometimento. E a relação com a música tem um frescor que somente os jovens podem proporcionar”, analisa o maestro Ashkenazy.
Trazidos para um período de ensaios – que inclui sessões com tutores especialistas em cada instrumento – o grupo prepara o repertório e segue em turnês durante as férias escolares. Dos 140 músicos que atualmente integram o grupo, 95 deles virão ao Brasil e contarão com a participação de três violinistas brasileiros: Andréa Dias, Leonardo Corassari – ambos com 22 anos de idade – e Luiz Fernando Cadorin, de 21 anos.
Para as récitas paulistanas, os programas são os seguintes:
18/04 – Sala São Paulo: “ Abertura As Bodas de Fígaro ” , de Wolfgang Amadeus Mozart; “Concerto para piano e orquestra Nº3”, de Ludwig van Beethoven , com solo de Vladimir Ashkenazy; e “Sinfonia Nº4”, de Piotr I. Tchaikovsky .
21/04 – Parque do Ibirapuera: “Abertura As Bodas de Fígaro”, de Wolfgang Amadeus Mozart; “A Moldávia”, de Bedrich Smetana; “Adágio da Sinfonia Nº9 Opus 95”, de Antonín Dvorak; e “Abertura Romeu e Julieta”, de Piotr. I. Tchaikovsky .
22/04 – Theatro Municipal: “Abertura As Bodas de Fígaro”, de Wolfgang Amadeus Mozart; “Concerto para piano e orquestra Nº3”, de Ludwig van Beethoven , com solo de Vladimir Ashkenazy ; e “Sinfonia Nº9 Opus 95”, de Antonín Dvorak .
Sobre a escolha das obras para a turnê brasileira, Ashkenazy lembra que se trata de uma decisão dele em conjunto com a orquestra e os produtores. “Para o Brasil, buscamos o maior apelo possível diante do público e, por isso, escolhemos duas das mais populares – e melhores – sinfonias já compostas. Também vamos surpreender o público no bis”, afirma.
O maestro acrescenta ainda que a opção por Dvorak se deve ao fato de que a terra natal do compositor – a República Tcheca – passa a fazer parte da União Européia ao lado de outros nove países a partir de 30 de abril, quando será realizada a cerimônia oficial de integração em Berlim, Alemanha. Esta, aliás, será a próxima parada da EUYO, que se apresentará no evento, transmitido ao vivo para toda a Europa.
História – Idealizada por Leonel e Joy Bryer, presidente e secretária geral da Fundação Internacional da Juventude da Grã-Bretanha, a EUYO foi criada oficialmente em 22 de abril de 1976. O principal propósito de estabelecê-la era demonstrar pela música a cooperação e a união da juventude européia, além de criar um exemplo para simbolizar o ideal europeu: uma comunidade de nações unidas trabalhando juntas pela paz, harmonia, justiça social e dignidade humana. A turnê inaugural em 1978 teve a regência do diretor musical e fundador, o maestro italiano Cláudio Abbado.
Outros regentes consagrados já estiveram à frente da orquestra como convidados: entre eles Daniel Barenboim, Leonard Bernstein, James Conlon, Sir Colin Davis, Herbert von Karajan e Zubin Mehta. Já a lista de solistas inclui Martha Argerich, Emanuel Ax, Barbara Hendricks, Nigel Kennedy, Christa Ludwig, Lord Yehudi Menuhin e Margaret Price.
A EUYO já se apresentou nas principais cidades, salas de concerto e festivais na Europa. Como uma “Embaixadora da Boa Vontade”, a orquestra já realizou importantes turnês pelo exterior, incluindo Extremo Oriente, Leste Europeu, Rússia e países bálticos. Também conquistou uma série de prêmios, incluindo o Olympia Prize da Alexander S Onassis Public Benefit Foundation, o Prêmio de Iniciativa Européia e o European Media Prize.
“Um dos aspectos mais importantes da EUYO é unir jovens de diferentes formações, raças, ideologias políticas e nacionalidades. Ao conviver e tocar em três cidades tão diferentes e fascinantes, eles poderão conhecer e levar para 18 países diferentes um pouco da cultura e das tradições do país”, comenta Joy Bryer, que além de co-fundadora, atualmente é Secretária Geral da orquestra. Ela completa: “Não podemos construir um futuro melhor para a juventude sem que eles tenham a oportunidade de cruzar todos os tipos de fronteira e aprender sobre o modo de vida de outros povos”.
Os patronos da orquestra são Romano Prodi (presidente da Comissão Européia) e cada um dos quinze primeiros-ministros dos membros da União Européia. Seu presidente é Patrick Cox, presidente do Parlamento Europeu. A EUYO é financiada pela Comissão da União Européia por meio de um benefício anual de bolsas de estudo (votadas pelo Parlamento Europeu) e também recebe incentivos dos quinze países membros. O restante do budget vem do patrocínio do setor privado e pelos organizadores dos concertos.
Vladimir Ashkenazy – O maestro costuma dizer que, para ele, a música é indivisível. Esta convicção vem de seu envolvimento passional em diferentes projetos ligados ao tema, seja como compositor, regente, recitalista de piano, músico de câmara ou produtor.
Iniciou sua trajetória no piano, estudando na Escola Central de Música e no Conservatório de Moscou. Não tardou a ser premiado, conquistando o Concurso Rainha Elisabeth (Bruxelas, 1956) e o Concurso Tchaikovsky (Moscou, 1962) e iniciou um período de três décadas de turnês pelos principais centros musicais do mundo. Como solista e recitalista, apresentou-se ao lado de músicos como Itzhak Perlman, Lynn Harrell e Barbara Bonney e de orquestras como as Filarmônicas de Los Angeles e Berlim e as Sinfônicas de Boston, São Francisco e Concertgebouw.
Também exerceu o cargo de diretor musical da Royal Phillarmonic de Londres e da Sinfônica de Berlim, além de ter sido o principal regente convidado de orquestras como a Philharmonia de Londres e a Sinfônica de Cleveland. Entre 1998 e 2003 foi regente titular da Filarmônica da República Tcheca, realizando uma série de turnês, gravações e projetos especiais.
Atualmente, além de dirigir a EUYO, Ashkenazy é regente laureado da Philharmonia e da Sinfônica da Islândia e assumirá o cargo diretor musical da NHK Symphony (Tóquio) na temporada 2004/05. Em paralelo, continua a se apresentar como pianista e adicionar registros ao seu catálogo de gravações, que inclui “Shostakovich Preludes & Fugues”, vencedor do Grammy de “Melhor performance solo instrumental”, em 1999.
Varig / Varig Log – Fundada em Porto Alegre (RS) em 1927, a Varig começou com uma linha de 270 quilômetros e hoje opera em 48 cidades no Brasil, com vôos diretos para 25 destinos de 19 países e quatro continentes. Sempre comandada por empreendedores audaciosos – entre eles Otto Ernst Meyer, seu criador e Rubem Berta, presidente durante 25 anos – a companhia já transportou mais de 220 milhões de passageiros em mais de 2,5 milhões de vôos. A distância percorrida pela Varig é suficiente para 115 mil voltas ao redor do planeta.
Já a Varig Log possui a maior malha aérea da América Latina, com o objetivo de realizar entregas pontuais, seguras, ágeis e regulares. Possui ampla rede de coleta, distribuição e rastreamento de última geração, estrutura que permite atender quatro mil cidades brasileiras, 90 países e 160 franquias. Sua equipe especializada garante o transporte de produtos perecíveis, animais vivos, valores e equipamentos para grandes eventos.
Para o presidente da Varig, Carlos Luiz Martins, a empresa se mantém fiel ao compromisso de estar sempre presente nos mais importantes momentos da cultura brasileira. “Estamos gratificados em poder colaborar com este projeto, trazendo ao país os talentosos jovens reunidos pela EUYO”, completa.
SP 450 – Além dos eventos realizados em 25 de janeiro, os 450 anos de São Paulo serão comemorados ao longo do ano em diversas oportunidades. O concerto da EUYO no Parque do Ibirapuera, com entrada franca, é um dos exemplos. Além disso, os eventos tradicionais da cidade estão sendo formatados para homenagear a cidade, como o GP Brasil de Fórmula 1, a Mostra Internacional de Cinema e a Bienal Internacional de Artes.
Mais de 170 entidades paulistanas estão organizadas no Comitê Municipal São Paulo 450 Anos e cerca de 900 projetos em áreas como música, cinema, arquitetura/urbanismo e meio ambiente já foram encaminhados para análise. No calendário oficial já estão confirmados eventos de peso como a XI Conferência da Unctad/ ONU – maior evento internacional no país desde a ECO/92, que reunirá cerca de 190 chefes de Estado no Anhembi, em junho – e os fóruns mundiais da Cultura e da Educação.
(Gazeta Mercantil, 27/03/2004)
A oferta e o padrão dos eventos de música erudita em São Paulo têm sido crescentes nos últimos anos. Resultado disso é que a metrópole paulistana pode se orgulhar de fazer parte do circuito privilegiado dos grandes concertos internacionais.
Especialmente este ano, a Sociedade de Cultura Artística abre sua temporada com a apresentação de uma personalidade bastante singular, há muito tempo esperada por aqui: a pianista portuguesa Maria João Pires. Admirada no mundo todo, a pianista conquistou um status jamais atingido por qualquer pianista conterrâneo seu. Para se ter uma idéia, Maria João foi incluída na histórica e seletiva série da gravadora Deutsche Grammophon “ Grandes pianistas ” , dedicada aos maiores intérpretes do século XX, em que figuram nomes como Artur Rubinstein, Sviatoslav Richter e Martha Argerich e Wilhelm Kempf.
Prestes a completar 60 anos de idade, Maria João, vem à São Paulo pela primeira vez acompanhada do brasileiro Ricardo Castro para fazerem juntos um recital a 4 mãos, no Teatro Cultura Artística nos dias 6 e 7 de abril, interpretando obras de Schubert (1798-1828), Chopin (1810-1849) e Schumann (1810-1856). Além do repertório em duo, os pianistas tocarão também isoladamente importantes obras de referência do período romântico para piano solo, como as duas Sonatas de Chopin e os Estudos Sinfônicos op. 13 de Schumann.
O espetáculo vale a pena, pois o duo pianístico demonstra rara sintonia, compartilhando a mesma linguagem musical. Há uma inegável identidade entre os dois musicistas no que diz respeito à estética e à sensibilidade musicais e também às ideologias e aos valores humanísticos. Conhecem-se já há muitos anos, mas apresentaram-se pela primeira vez em novembro de 2002 e já desenvolvem um extenso trabalho conjunto.
O baiano Ricardo Castro, nascido em 1964, radicado há muitos anos na Su í ça, foi menino prodígio, tendo se apresentado aos 10 anos de idade como solista da Orquestra Sinfônica de Salvador. Estudou no Conservatório de Genebra com Maria Tipo e Arpad Gerez. Coleciona diversos primeiros lugares em concursos internacionais de piano, tendo sido o primeiro latino-americano a vencer o disputadíssimo “ Leeds International Piano Competition ” na Inglaterra, em 1993. Já realiza um carreira internacional bastante sólida, com apresentações nas principais salas de concerto do mundo e com orquestras como a BBC de Londres, Fliarmônica de Tóquio e a Orchestre de la Suisse Romande.
Além de cumprir uma agenda cheia de concertos ao longo do ano, o que diferencia Maria João Pires dos grandes pianistas da atualidade é o fato dela dedicar-se com grande esforço e sucesso a uma importante missão pedagógica e social: ela criou e dirige há 18 anos, com recursos próprios e subvenção do governo português, uma instituição peculiar, o “ Centro de Belgais para o Estudo das Artes ” . Situado na zona rural de Portugal, próximo à fronteira com a Espanha, funcionam no centro uma escola primária, um núcleo de estudos para pianistas e músicos que passam temporadas aperfeiçoando-se com Maria João, oficinas de artes plásticas, de música, de ecologia e de nutrição para crianças da região. Além disso, o centro oferece uma série de concertos ao ar livre a preços acessíveis e é lá onde a pianista sente-se à vontade para realizar suas próprias gravações.
Dentre os muitos títulos da discografia de Maria João Pires, alguns dos mais recentes são: “ Moonlight ”, com Sonatas de Beethoven; “Le Voyage Magnifique”, com a integral dos Improvisos de Schubert; Noturnos e outras obras de Chopin; Concerto de Schumann para piano e orquestra, com a Orquestra de Câmara da Europa, dirigida por Cláudio Abbado. A pianista tem acordo de exclusividade com a gravadora alemã Deutsche Grammophon, onde o duo pianístico pretende gravar seu primeiro CD nos próximos meses.
De Ricardo Castro, já estão registradas: Três Sonatas de Mozart; “Noches em los Jardines de Spaña”, de Manuel e Falla; “Recital Franz Liszt”, com os “Annés de Pélerinage; Álbum com cinco CDs “Master Pieces” dedicado a Chopin. Ricardo grava com exclusividade para a gravadora Arte-Nova – BMG Ariola.
(Gazeta Mercantil, 06/03/2004)
Nestes tempos de globalização, em que o cotidiano do cidadão comum transcorre cada vez mais balizado pela rápida evolução tecnológica nas comunicações, estamos diante de um ambiente de crescente integração de diferentes meios.
No campo das artes, embora não seja novidade - o assunto já foi aprofundado em diversos estudos, notadamente por Étienne Souriau em seu livro “ A correspondência das artes – Elementos de Estética comparada ” - criadores, intérpretes, especialistas, ou aqueles que simplesmente apreciam arte de um modo geral, vivenciam constantemente situações em que são naturais uma série de percepções, comparações e indagações em torno de pontos comuns entre diferentes modalidades artísticas. Pode–se dizer que existe uma tradição na prática ininterrupta de leituras intersemióticas, sinalizando para uma vinculação entre as artes.
São comuns expressões do tipo “ colorido musical ” , “ ritmo de uma pintura ” , “ densidade de uma voz ” , entre tantas outras. Goethe, por exemplo, decretou a expressão “ música congelada ” para designar arquitetura.
Nessa linha de pensamento, “ Literatura e Música ” , um lançamento da editora Senac São Paulo e Itaú Cultural oferece, especialmente ao leitor interessado nas duas artes, cinco ensaios contendo uma variedade visões teóricas de especialistas no assunto: Solange Ribeiro de Oliveira, Carlos Rennó, Paulo Freire, Maria Alice Amorim e Janaina Rocha.
O texto escrito pelo músico Paulo Freire, por exemplo, procura dar uma idéia da musicalidade presente na fala do sertanejo, nas histórias contadas no interior do Brasil. Mostra, ainda, que há profundas diferenças regionais em nosso país, tornando às vezes muito difícil a compreensão de conceitos, de significados e da própria sonoridade, “parecendo tratar-se de outra língua”.
Já, Maria Alice Amorim, busca na transmissão oral da península ibérica as origens da canção popular brasileira. Explica e exemplifica a riqueza dos ritmos envolvidos nas cantigas de desafio, parlendas, cordel, sambadas e maracatu. Localiza histórica e geograficamente cada um dos movimentos da canção popular no Brasil.
Janaina Rocha trata de um fenômeno musical mundial, o rap, nome derivado de rhythm and poetry (ritmo e poesia).Intitulado “Rapensando”, o ensaio explica os diversos termos usados no meio, como MC (mestre-de-cerimônias) e DJ (disc-jóquei). A autora percebe semelhanças nas origens do rap e do jazz, ambos ritmos de origem negra cujos surgimentos estiveram relacionados a “um sentido de resistência cultural”.
O ensaio do produtor musical Carlos Rennó apresenta como ponto de partida a idéia do poeta norte-americano Ezra Pound que a poesia seria uma arte muito mais próxima da música que da literatura. Comenta que essa relação remonta à própria origem da poesia, a arte trovadoresca. A música popular seria para ele uma espécie de reprodução da arte trovadoresca na modernidade. Nesse contexto, o autor destaca os importantes criadores musicais e letristas no Século XX, como Rodgers & Hart nos Estados Unidos, Noel Rosa, Lamartine Babo, Vinícius de Morais, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, no Brasil.
Em determinado ponto do texto de Rennó, o leitor é apresentado a um exemplo de fanopéia (texto poético de forte apelo imagético) com observações e considerações do autor sobre a canção “Chão de estrelas”, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, grande sucesso de nossa música popular nos anos 1930.
Outro aspecto importante e revelador contido em seu texto é a questão da preservação da musicalidade na versão TRADUÇÃO de textos literários escritos em outros idiomas. Rennó demonstra a importância da escolha do partido a ser adotado nesse processo. Exemplifica com trabalhos próprios de versões de originais na língua inglesa e com o poema O corvo , de Edgar Allan Poe, comparando os efeitos de duas diferentes versões da obra para o português: a de Fernando Pessoa - com um profundo senso rítmico e musical, mantendo a métrica do original, “reproduzindo em português a mesmíssima música que o poema apresenta em seu ponto de partida”- e a de Machado de Assis, sem a característica musical.
Para o leitor não habituado com a terminologia específica musical ou literária, é bastante claro e didático o texto da professora de literatura Solange Ribeiro de Oliveira. Ela assinala que música e literatura são duas artes bastante próximas, pois além de partilharem o mesmo material básico – o som – ambas têm o tempo virtual como sua aparição primária. A autora apresenta curiosas considerações sobre a variedade de paralelos entre as formas musicais e literárias, como Tema e Variações, Fuga e Sonata, concluindo que nenhuma forma musical se compara a esta última. É considerável a quantidade de trabalhos literários que a forma musical Sonata tem inspirado em muitos romancistas e poetas.
Outras formas de relação entre as duas artes são apontadas, como a descrição literária de uma obra musical, encontrada em “ Bolero de Ravel ” , em Sentimento do mundo de Carlos Drummond de Andrade, ou em Reflexos do baile , de Antônio Callado.
A autora ilustra, ainda, a prática da citação no campo da música com sua aplicação em “Teresinha” da Ópera do malandro de Chico Buarque de Holanda, como paródia de Teresinha de Jesus , do cancioneiro tradicional brasileiro.
Solange conclui que o território comum entre música e literatura parece inesgotável. Música de palavras, música verbal ou estruturação literária inspirada em modelos musicais são espécies de rótulos úteis para os interessados na melopoética (do grego, melos = canto + poética), termo que designa simbiose entre palavras e música, originando uma nova forma de se perceber uma obra de arte.
ASSIS BRASIL, UM APAIXONADO PELO PIANO
(Gazeta Mercantil, fev 2004)
Para quem gosta de piano, uma boa notícia: acaba de sair pela gravadora Biscoito Fino o CD Todos os pianos de João Carlos Assis Brasil. Intérprete de sólida formação erudita, igualmente desenvolto no repertório popular, o pianista carioca mostra neste disco uma síntese de sua versátil trajetória.
Nascido em 1945, Assis Brasil começou a estudar piano ainda criança e aos 15 anos já era acompanhado por orquestras em concertos. Foi aluno de Jacques Klein, aperfeiçoando-se em Londres, Paris e Viena. Na década de 60, na Áustria, ganhou o terceiro prêmio do Concurso Internacional Beethoven, tocando em seguida com a Filarmônica de Viena e excursionando pela Europa.Tem trilhado uma carreira marcada pela diversidade de repertório, gêneros, autores e parcerias com outros músicos, como Wagner Tiso, Alaíde Costa, Ney Matogrosso, Olívia Byington.
Nas 13 faixas, há obras de diversos compositores brasileiros e internacionais, desde a música de Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Zequinha de Abreu até referências aos grandes clássicos como Chopin e Rachmaninoff.
O que mais chama a atenção na escuta deste CD, contudo, é a evidente e imensa paixão com que o intérprete se entrega ao instrumento. São muito envolventes e variados os momentos timbrísticos criados pelo pianista ao longo de suas interpretações e improvisações, muito à vontade nos rubatos , ressaltando sempre os baixos em planos harmônicos bem sustentados, grandes contrastes de dinâmica. Assis Brasil é dono de amplos recursos técnicos e domínio característicos de alguém que poderíamos chamar de um pianista “de mão cheia”. Oferece interpretações inesquecíveis. Particularmente na Suíte Melodistas Brasileiros , que surge como uma das seções mais tocantes do disco. Nela, temas de Tom Jobim, Luiz Bonfá, Francis Hime e Cartola são compartilhados na mesma obra, muito bem articulada na concatenação criteriosa dada pelo intérprete-improvisador.
Outros destaques ficam por conta de sua própria obra, a plácida Suíte Improviso , em contraste com a rítmica faixa subseqüente dedicada a Zequinha de Abreu.
Love is here to stay , da Suíte Gershwin, recebeu uma leitura exuberante e luminosa, algo muito próximo à linguagem do romantismo de Liszt (1811-1886).
Na Suíte Cinematográfica , o pianista equilibra com criatividade entre as diferenças dos universos de Nino Rota, parceiro de Fellini ( Amarcord ), Richard Rodgers ( My favorite things ), Charles Chaplin ( Limelight ).
O CD foi gravado em um piano Steinway de ótima qualidade, fato que agrega um importante diferencial ao lançamento.
Simultaneamente, a gravadora reedita o CD Jazz Brasil , gravado por Assis Brasil em 1986, cujo principal destaque são as interpretações de uma série de obras de Tom Jobim.
A MÚSICA CONTEMPORÂNEA EM FESTA
No Brasil, o mais consistente evento dedicado à música erudita contemporânea é seguramente o “ Festival Música Nova”. Acontecendo há quase quatro décadas – algo raro no páis - o festival vem estimulando a produção musical e a formação de público para o gênero, realizando sua 39ª edição entre os dias 6 e 18 de agosto, nas cidades de São Paulo e Santos. Desde sua fundação, é dirigido pelo seu mentor, o compositor Gilberto Mendes, auxiliado atualmente pelo professor Lorenzo Mammi, diretor do Centro Universitário Maria Antônia da USP e por Luiz Gustavo Petri, regente da Orquestra Municipal de Santos, responsáveis pela direção executiva.
Este ano, os concertos acontecerão simultaneamente em diversos espaços, nas cidades de São Paulo e Santos. Na capital, realizam-se no Centro Universitário Maria Antônia, no Theatro São Pedro, no SESC Consolação, na Aliança Francesa, no Teatro Sérgio Cardoso e no Museu de Arte de São Paulo. Em Santos, os eventos acontecem no Teatro Municipal Brás Cubas.
Um dos maiores destaques da programação fica por conta da cantora italiana Luísa Castellani – intérprete preferida de Luciano Berio, em suas últimas obras, e ganhadora do “Prêmio Gino Tani de Ópera” em 1991. Outros imprtantes convidados internacionais são os franceses Thierry Miroglio – Ancuza Aprodu (percussão e piano), o grupo “Ensemble Itinéraire”, o regente norte-americano Jack Fortner e o pianista mexicano Max Lifchitz, indicado este ano para o prêmio Grammy.
Dentre os artistas e grupos brasileiros presentes ao Festival, estão a orquestra Sinfônica de Santos, a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, o Grupo Hespérides e a Sinfonia Cultura, que faz a estréia mundial de “Rastro Harmônico”, nova peça de Gilberto Mendes composta em 2004. Segundo o compositor, “trata-se de um trabalho experimental, um fluir por linguagens musicais que vão das mais sofisticadas até as mais populares”. A obra será apresentada dia 15 em Santos, e dia 16 no Teatro Anchieta do SESC Consolação, em São Paulo.
Haverá, ainda, um concerto dedicado exclusivamente à música eletroacústica, com o grupo Akronon e a “orquestra de alto-falantes”, de Flo Menezes.
Segundo Gilberto Mendes, “após tantos anos, o festival tornou-se um movimento vivo norteado pela música de invenção. As mais diversas experimentações de linguagens se apresentam no Festival. Só não há espaço para a música tradicional”.
Uma história de dificuldades e obstinação
Criado em 1962 por Gilberto Mendes, o “Festival Música Nova” é o mais antigo do gênero em todo o continente americano, com o objetivo de divulgar a música erudita contemporânea. Sua fundação representou o início de um movimento que buscava renovar a música brasileira na década de 1960.
O festival traz importantes compositores e intérpretes do mundo todo, reforçando seu caráter nitidamente formativo ao mesclar em sua programação músicos consagrados a jovens autores e intérpretes, promovendo a ampliação do público de música contemporânea, estimulando as novas gerações de músicos.
É admirável a obstinação de Gilberto Mendes na batalha pela manutenção da iniciativa por tantos anos, pois o “Festival Música Nova” coleciona sérios percalços em seu histórico: foi interrompido entre 1965 e 1967, em virtude da ditadura militar, e novamente em 2002, por falta de patrocínio.
Este ano, sua continuidade em tais proporções foi felizmente assegurada graças ao patrocínio da Petrobrás e aos inúmeros apoios obtidos de diversas instituições.
Certa vez, a arquiteta romana Lina Bo Bardi (1914-1992) – famosa no Brasil sobretudo pela criação do Museu de Arte de São Paulo – MASP – disse em uma entrevista que todo mundo deveria ter a sua quitanda.
Inspirando-se na sugestiva metáfora, Maria Bethânia resolveu fazer agora a sua própria quitanda, que acaba de inaugurar em forma de um diferenciado empreendimento musical, o selo Quitanda .
Na audição e na apreciação do projeto gráfico dos encartes dos dois primeiros CDs lançados simultaneamente pelo selo, percebe-se claramente a direção artística que o empreendimento pretende tomar: mostrar a diversidade das manifestações de nossa cultura de raízes.
O primeiro CD – Brasileirinho – interpretado pela própria Bethânia, mescla às diversas faixas musicais intervenções poéticas de Ferreira Gullar e de Denise Stoklos, trazendo também músicos convidados como o grupo instrumental mineiro Uakti e as cantoras Miúcha e Nana Caymmi. Há, entre outras, composições das parcerias formadas por Roberto Mendes e Capinam, Caetano Veloso e Gilberto Gil, Armando Cavalcanti e Klecius Caldas.
O segundo CD, intitulado Vozes da Purificação, é o registro de uma série de músicas conduzidas pela festejada cantadora de Santo Amaro da Purificação, Dona Edith do Prato, ‘uma espécie de cartão postal sonoro da Bahia', nas palavras do poeta Hermínio Bello de Carvalho.
Com 87 anos de idade, revelada há três décadas por Caetano Veloso, Dona Edith é uma expert em entoar samba de roda e em raspar a faca no prato, com um ritmo tão especial que lhe rendeu o nome artístico. Tornou-se referência para diversas gerações de cantadores.
Em algumas músicas do CD, a cantora tem a companhia de seus conterrâneos Maria Bethânia, Caetano Veloso e do sambista Roque Ferreira. Chamam a atenção do ouvinte, também, o som vibrante do acompanhamento das palmas e das vozes das cantadoras septuagenárias de Santo Amaro, tão características dos sambas do Recôncavo.
Deve-se torcer para que a Quitanda de Bethânia tenha sucesso, prosseguindo na plenitude de sua vocação, garimpando e difundindo outras tantas manifestações artísticas dos mais remotos cantos deste Brasil sortido e surpreendente.
(Gazeta Mercantil)
Bach e Villa-lobos, dois verdadeiros gigantes da criação musical, têm encontro marcado na nova série musical promovida pelo Theatro Municipal de São Paulo - “ Brandenburgos-Bachianas ”. A iniciativa oferece uma mostra das sonoridades que podem surgir no diálogo entre as linguagens dos dois compositores. Ao longo da temporada, em cada evento serão executados sempre dois Concertos Brandenburgo de Bach e uma das Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos. Não por acaso, o primeiro deles acontece justamente no próximo domingo, dia 21 de março, às 11 horas da manhã, data em que se comemora o nascimento de Johann Sebastian Bach (1685-1750).
Neste primeiro programa, serão interpretados o Prelúdio e a Fuga das “ Bachianas Brasileiras no. 9 ” , os Concertos de Brandenburgo números 1 e 4, além da inédita Sinfonia Concertante "Das Vozes Esquecidas" , do compositor Marco Padilha, pois complementam a programação estréias de obras de autores brasileiros contemporâneos, encomendadas com a mesma inspiração (Bach e Bachianas).
"É uma proposta antropofágica", diverte-se o maestro Henrique Lian. "É a música européia dialogando com a brasileira, para quem serviu de fonte de inspiração."
Os concertos para orquestra denominados “ Brandenburg o” de J. S. Bach, compostos entre 1711 e 1721, são certamente um de seus mais populares ciclos de obras. Villa-Lobos (1887-1959) identificava-se muito com a música do mestre alemão, estimulado sobretudo pelas afinidades que acreditava existirem entre sua obra e a música folclórica brasileira, especialmente no que se refere à considerável autonomia melódica de cada parte instrumental. Chegou a fazer diversas transcrições de obras de Bach para coro e conjuntos de instrumentos.
Tais afinidades com a linguagem de Bach foram exploradas ao máximo pelo compositor brasileiro na concepção das nove “ Bachianas Brasileiras ”, escritas entre 1930 e 1945 para as mais diferentes formações camerísticas e orquestrais.
Para quem quiser se aprofundar no conhecimento das Bachianas, uma referência recomendável é a escuta das gravações históricas realizadas na França na década de 1950, remasterizadas em seis CDs pelo selo EMI, com o título de “ Villa-Lobos par lui-même ”. As execuções de todas as Bachianas, de alguns Choros e de outras importantes obras são comandadas pelo próprio compositor à frente dos Coros e da Orquestra Nacional da Radiodifusão Francesa, com a presença de diversos solistas de renome, como Victoria de Los Angeles, Magda Tagliaferro e Fernand Dufrene.
(Gazeta Mercantil)
O município de Santo André (SP) está completando 451 anos de sua fundação. Felizmente - para o bem da memória musical brasileira – a data tem mais um bom motivo para comemorações: um concerto musical marca a consolidação do projeto Memória Musical, uma louvável iniciativa empresarial, com patrocínio da Petroquímica União e Infraero.
Para quem não conhece, o projeto, concebido e coordenado pela empresária paulista Anna Nery de Castro, dedica-se ao resgate de manuscritos de compositores eruditos brasileiros, colocando-os ao alcance de músicos do mundo todo.
Lançado em 1998, com um catálogo de 18 obras musicais já recuperadas em seus seis anos de existência, o projeto Memória Musical demonstra seguramente dar um importantíssimo passo em direção à salvação da memória da música de concerto brasileira.
"Transformamos manuscritos de difícil manuseio e leitura, em um
conjunto de partituras digitalizadas e totalmente revisadas, possibilitando
a execução dessas obras por orquestras do Brasil e do mundo", explica Anna.Levar ao público obras desconhecidas é uma árdua tarefa que envolve o empenho de diversos músicos, pesquisadores e outros profissionais especializados que percorrem o país e a Europa em busca de manuscritos raros.
À frente do trabalho de pesquisa musical, o violinista e maestro alemão Erich Lehninger comenta que com mais de dois séculos de criação de música erudita, não há no país boas edições das músicas mais representativas do repertório brasileiro. Outra preocupação sua é oferecer com este resgate edições musicologicamente elaboradas, contendo relatos críticos sobre as fontes. “ É um trabalho de garimpo e muitos dos velhos manuscritos encontram-se em precário estado de conservação, o que significa o risco de se perder esse acervo".
Em uma ação complementar de efeito multiplicador, todas as obras digitalizadas e revisadas são enviadas à Academia Brasileira de Música, passando a integrar seu banco de dados com partituras completas e editadas conforme os padrões internacionais, disponíveis para locação mediante taxas simbólicas. E na busca da conquista de novos públicos, os catálogos também são enviados a orquestras de todo o mundo.
Nunca é demais alertar para o fato que um empreendimento de tamanha envergadura dificilmente seria concretizado sem o patrocínio das empresas que nele se envolveram mediante uma estratégia de marketing cultural, como a Volkswagen, a Ultragaz, a Infraero, a Siemens, o Banco BNL e a Petroquímica União, além do apoio da Lei de Incentivo à Cultura – Minc. No Brasil, embora seja uma prática crescente, o marketing cultural ainda está engatinhando. Seria desejável que um número maior de empresários se sensibilizassem e ampliassem o rol de empresas patrocinadoras de projetos culturais. Especialmente, o segmento de música erudita e instrumental dispõe inclusive de um mecanismo especial de incentivo no Ministério da Cultura: todo projeto aprovado em uma dessas duas modalidades não exige contrapartida do investidor, podendo este aplicar o total dos recursos oriundos da renúncia fiscal.
O evento é o sexto concerto apresentado pelo projeto desde seu lançamento e acontece no Teatro Municipal de Santo André. A partir de um manuscrito totalmente recuperado, o público poderá apreciar em primeira audição nacional, com entrada franca, a execução da 6ª Sinfonia em mi bemol maior , de João Gomes de Araújo (1846-1943). A regência é do maestro Flavio Florence, à frente da orquestra Sinfônica de Santo André.
Na ocasião, o público poderá também ouvir duas outras composições quase inéditas, pois ambas foram executadas apenas uma única vez em um passado remoto: o Concerto em lá menor para piano e orquestra, de Souza Lima (1898-1982) e o poema sinfônico Insônia , de Francisco Braga (1868-1945). O Concerto para piano de Souza Lima, escrito em 1965, tem como solista o pianista Paulo Gori.
Na verdade, o concerto em Santo André oferece apenas uma amostra da abrangente atuação pretendida pelo projeto Memória Musical, a julgar pela quantidade de outros compositores que o integram: Alberto Nepomuceno, Leopoldo Miguez, Lorenzo Fernandez, Brasílio Itiberê, Francisco Mignone, Alexandre Levy, Hekel Tavares, Henrique Oswald, Radamés Gnattali, Camargo Guarnieri, Guerra Peixe.
Repertório
Até mesmo os grandes apreciadores de música erudita sabem muito pouco sobre o compositor, professor e regente João Gomes de Araújo (1846-1943). Nascido na cidade de Pindamonhangaba, SP, no início de sua carreira foi um músico muito atuante na região do Vale do Paraíba, passando uma longa temporada de especialização na Itália. Compôs seis sinfonias, hinos, missas e as óperas Carmosina, Edméia, Helena e Maria Petrovna . Foi um dos fundadores do legendário Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, cidade onde fixou-se a partir do ano de 1903.
Sua Sexta Sinfonia pode ser considerada uma obra representante do romantismo tardio. Composta em 1923, possui um caráter pomposo, tendo recebido do próprio autor o título de “ Militar ” . Seus quatro movimentos apresentam forma e escrita acadêmicas.
O poema sinfônico Insônia de Francisco Braga foi composto em 1908, tendo sido executado apenas uma vez, no ano seguinte, na inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A música é descritiva e segue um roteiro de Escragnolle Doria. A forma musical poema sinfônico foi muito explorada por Braga, que escreveu também Tarde de Estilo, Paysage, Cauchemar, Marabá e Espisódio Sinfônico.
O compositor, um dos mais importantes do nosso romantismo musical brasileiro, alcançou notoriedade sobretudo graças à música escrita para o nosso Hino à Bandeira ”.João de Souza Lima (1898-1982) foi uma personalidade de relevância no meio musical de São Paulo. Desenvolveu com igual competência uma importante carreira de intérprete , compositor e educador.
Herdeiro musical de Luigi Chiafarelli, teve como fato decisivo para sua formação uma bolsa de estudos que ganhou para estudar no Conservatório de Paris em 1919, impulsionando uma longa permanência na Europa na década de 1920. Estudou com I.Philipp, Egon Petri e Brailowsky, aperfeiçoou-se na interpretação da obra pianística de Debussy e Ravel e realizou inúmeras apresentações públicas.
Foi fundador da Orquestra de Câmera da sociedade Cultura Artística de São Paulo e da Orquestra Sinfônica do estado de São Paulo – OSESP, tendo sido regente titular da Orquestra sinfônica Municipal de São Paulo.
O Concerto em lá menor para piano e orquestra foi a única obra no gênero escrita por Souza Lima. Foi apresentado uma única vez em 1978, com a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, em homenagem ao 80º aniversário do compositor. A obra em três movimentos é complexa, contudo será executada por intérprete à altura: o solo fica a cargo do sensibilíssimo pianista Paulo Gori, ex-aluno do compositor, o primeiro brasileiro a ter sido premiado em um dos mais importantes concursos de piano do mundo, o “Rainha Elizabeth”, na Bélgica.
DescentralizaçãoImportante pólo de descentralização da programação musical paulista, a Orquestra Sinfônica de Santo André, dirigida pelo Maestro Flavio Florence, tem trazido para seu pódio regentes como Eduardo Rahn, Enrique Bátiz, Ricardo Kanji, solistas como Nelson Freire, Arnaldo Cohen, Cláudio Cruz, Antonio Menezes, Hermeto Paschoal e, como convidados especiais de outras áreas artísticas, Ana Botafogo, Sergio Mamberti, Cacá Carvalho e Antonio Fagundes.
Mantida pela prefeitura do município, tem produzido diversos projetos especiais, dentre os quais a programação de Ensaios abertos da Sinfônica de Santo André, que já atendeu a mais de dez mil crianças da rede pública e privada de ensino, dinamizando significativamente a oferta cultural da região do ABC paulista.